cerca de 20% das aves registradas em Campo Grande são migratórias – CGNotícias
Às vésperas da COP15, conferência internacional voltada à conservação das espécies migratórias que será realizada em Campo Grande, especialistas destacam a importância da cidade para a biodiversidade. Levantamentos apontam que a capital sul-mato-grossense abriga cerca de 400 espécies de aves nas áreas urbana e periurbana, sendo aproximadamente 20% delas migratórias.
Atualmente, a Capital Morena é reconhecida internacionalmente pela presença de áreas verdes, parques ecológicos, cursos d’água e vegetação que atravessa bairros inteiros. Essa combinação faz da cidade um verdadeiro refúgio para a fauna, especialmente para as aves, inclusive espécies migratórias que cruzam continentes e encontram aqui locais de descanso, alimentação e até reprodução.
Foto: Imagem de Campo Grande. Imagem: Roberto Ajala.
A pesquisadora e educadora ambiental Maristela Benites, do Instituto Mamede de Pesquisa Ambiental e Ecoturismo, explica que a diversidade de aves na cidade é impressionante. “Campo Grande tem aproximadamente 400 espécies de aves somente na área urbana e periurbana e podemos afirmar que cerca de 20% delas são migratórias”.
Para a educadora, a migração é um fenômeno natural que ocorre em várias partes do planeta. “A migração é um fenômeno natural e biológico que dirige o movimento populacional, periódico e cíclico de várias espécies animais ao redor mundo. Esse movimento ocorre entre áreas geograficamente separadas, isto é, entre uma área reprodutiva e uma área não reprodutiva, envolvendo a maioria ou a totalidade de uma população (número de indivíduos de uma espécie), e que resulta em uma ausência temporária e previsível no local de origem”.
Conforme a pesquisadora, diferentes espécies de aves migratórias passam por Campo Grande ao longo do ano, seguindo ciclos naturais de deslocamento em busca de alimento, clima favorável ou locais de reprodução. Por isso, é possível observar aves migratórias na cidade em praticamente todos os meses, embora algumas espécies apareçam com mais frequência em períodos específicos.
Foto: Águia-pescadora vista em Campo Grande. Imagem: Simone Mamede/Reprodução.
As aves conhecidas como migrantes neárticas, que vêm da América do Norte para fugir do inverno rigoroso do hemisfério norte, costumam ser vistas com mais intensidade em Campo Grande entre os meses de agosto e abril.
Entre elas estão espécies como maçaricos, o sovi-do-norte, a águia-pescadora e o falcão-peregrino, considerado o animal mais rápido do planeta, capaz de atingir cerca de 300 km/h.
Foto: Falcão-peregrino, ave mais rápida do planeta. Imagem: Suzana Arakaki/Reprodução.
Há também as chamadas migrantes austrais, que realizam deslocamentos dentro da própria América do Sul em busca de temperaturas mais amenas. Essas espécies costumam aparecer na região entre abril e novembro, como é o caso do príncipe e da calhandra-de-três-rabos.
Foto: O príncipe, ave migratória avistada em Campo Grande. Imagem: Simone Mamede/Reprodução.
Outro grupo importante é formado por aves que se reproduzem em Campo Grande e em outras regiões do sul e sudeste do Brasil e depois seguem em direção ao norte do continente, muitas vezes até a região amazônica. Entre elas estão espécies como a tesourinha, o bem-te-vi-rajado e o suiriri, que costumam ser observadas na cidade entre o final de julho e março ou abril.
Foto: Suiriri-de-garganta-branca avistada em Campo Grande. Foto: Simone Mamede/Reprodução.
Sobre os ciclos naturais
Segundo Maristela, esses deslocamentos seguem ciclos naturais e se repetem todos os anos, já que muitas aves guardam memória dos locais onde encontram alimento, abrigo e condições adequadas para descansar durante suas longas jornadas. Por isso, a preservação de áreas verdes, árvores e fontes de água é essencial para garantir que essas espécies continuem encontrando em Campo Grande um ponto seguro em suas rotas migratórias.
Observar essas rotas ajuda a compreender uma lição importante sobre a natureza. “Compreender o movimento das espécies migratórias é um bom exercício para entender que para a natureza não há fronteiras políticas, mas as limitações se dão no campo das condições e recursos para a sobrevivência e qualidade de vida”, destaca Maristela.
Foto: Gavião sovi ave migratória avistada em Campo Grande. Imagem: Simone Mamede/Reprodução.
Conforme a gerente de Arborização da Semades, Dayane Zanela, a arborização e as áreas de preservação permanente no ambiente urbano de Campo Grande desempenham papel estratégico como infraestrutura ecológica funcional, contribuindo para a conservação das espécies migratórias.
“Árvores, parques e corredores verdes oferecem abrigo, locais de repouso, suporte alimentar e condições ambientais favoráveis para essas espécies durante seus deslocamentos. Esse compromisso com o fortalecimento da infraestrutura verde urbana também contribuiu para o reconhecimento de Campo Grande como Capital do Turismo de Observação de Aves. O município vem estruturando sua política de arborização urbana com planejamento técnico, ampliação das áreas verdes e valorização de espécies nativas, integrando a conservação da biodiversidade às estratégias de planejamento urbano e de resiliência climática”, pontua.
Foto: Imagem aérea de Campo Grande. Imagem: Roberto Ajala.
Sobre as discussões da Cop15
Esse cenário ganha ainda mais relevância no momento em que Campo Grande se prepara para sediar a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Selvagens (COP15/CMS), evento da Organização das Nações Unidas (ONU) que será realizado entre os dias 23 e 29 de março de 2026.
Durante a conferência, representantes de governos, cientistas, ambientalistas e organizações internacionais vão discutir estratégias para fortalecer a proteção das espécies migratórias em todo o planeta. Entre os temas que devem ser debatidos estão o combate à captura ilegal de animais, a criação de planos de conservação para espécies ameaçadas, a proteção de corredores ecológicos utilizados nas rotas migratórias, além dos impactos das mudanças climáticas e da perda de habitat sobre a fauna silvestre.
Para a pesquisadora, sediar um evento dessa magnitude representa um marco para o município e para o Estado. “É um momento histórico para o município e o estado. Primeiro porque tem a oportunidade de protagonizar discussões sobre ciência e a política ambiental regional, nacional e mundial, além de mostrar a nossa biodiversidade, nossos biomas pelo estado (Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e Chaco), nossas áreas verdes, movimentar o turismo e a economia, mobilizar as escolas, valorizar o trabalho e esforços dos nossos pesquisadores e cientistas, nossas universidades e instituições de pesquisa e mobilizar a população em geral para um tema mundial e de grande importância e abrangência, sobretudo em tempos de mudanças climáticas e saúde única, onde as mudanças que ocorrem no ambiente e nos afetam diretamente, pois estamos todos conectados enquanto seres vivos que habitam um mesmo planeta e são interdependentes”.
Foto: Marreca-toicinho ave migratória. Imagem: Simone Mamede/Reprodução.
Maristela ainda destaca que o encontro internacional também pode mobilizar a sociedade local. “Acaba sendo uma vitrine político-científica a COP15 colocando Campo Grande como palco das discussões globais sobre a conservação socioambiental global, permitindo que gestores, cientistas, pesquisadores, estudantes e chefes de estado de todo o mundo conheçam in loco a nossa realidade, os desafios e as nossas belezas naturais”.
Durante a realização da COP15, o Instituto Mamede também participará da programação científica do evento, coordenando uma mesa temática sobre observação de aves e aves migratórias, além de realizar o lançamento do livro “Aves do Caminho da Escola”, que aborda a relação entre educação ambiental e a observação das espécies presentes no cotidiano.
#ParaTodosVerem: Imagens de aves migratórias e de pontos de Campo Grande. Imagem de capa é a espécie tesourinha. Imagem: Simone Mamede/Reprodução.
