São João passou por aqui! Conheça baianos que fazem tradições juninas resistirem – Jornal Correio

Para o povo nordestino, São João é santo, mas também reencontro com a infância, memória afetiva e estado de espírito. A comemoração católica veio de Portugal, ainda no século XV. No Brasil, virou festa da colheita do milho e, por isso, se adaptou muito bem à zona rural do Nordeste. Em face da urbanização, associada à violência e aos grandes eventos promovidos pelas prefeituras, os festejos juninos têm enfrentado um processo de descaracterização, mas, apesar disso, ainda é a festa mais popular do país. A resistência vem de pessoas que mantêm a tradição abrindo suas casas, percorrendo as ruas com trios de forró, levando animação pra todo mundo. O que importa é ter a certeza que São João passou por aqui!

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Família unida  “Meu São João é sagrado!”, avisa Zana Tourinho, de 64 anos, que herdou dos pais a empolgação pelos festejos juninos. Morando em Salvador, em junho ela pega o caminho de Amargosa, onde viveu por 16 anos. Lá, mantém uma casa com o marido e, nesse período, recebe amigos para a festa organizada pela família. Todo mundo contribui. “Fazemos o orçamento, dividimos os custos e realizamos o evento dentro de casa, na porta da rua, e onde der para  acontecer. Isso com muito amor, alegria e é, claro, um licorzinho”, brinca. Tem até música personalizada, o ‘Forró da gente’. Também tem churrasco. “Antes, íamos de casa em casa, mas, devido a violência, infelizmente, deixamos de ir”, lamenta Zana. A festança começa no dia 23, véspera de São João, e se entende até o dia 25.

Expectativa Para a ireceense Ana Maria Dourado Pimenta, 58, o São João é o momento mais aguardado do ano. Quituteira de mão cheia, ela prepara, entre outras delícias, amendoim cozido, biscoitinhos, bolos de aipim e de fubá. A sustança fica por conta do mocotó e do sarapatel, que acompanham os licores também produzidos por Ana. O alpendre da casa foi adaptado para a festa, que é decorada com oratórios, bandeirolas, balões coloridos e toalhas de chita nas mesas. Chamam atenção os estandartes com as imagens dos santos juninos: Santo Antônio, São João e São Pedro, “Eu faço tudo. Comecei essa tradição em nossa família há mais de três décadas”, afirma. Depois de dois anos sem comemorar, devido a pandemia, agora ela espera os amigos, os parentes e os filhos que moram em Salvador. A filha,Thiala Karina Dourado dos Santos, 33, vai levar reforços: “Vão comigo meu noivo e umas dez pessoas da família dele”, avisa. 

Olha o Coelho! Aloma Brito Cardoso e Silva Coelho, 40, celebrava o São João com a família desde criança, quando morava em Ilhéus. Ao se mudar para Santo Antônio de Jesus, onde vive com o marido e os três filhos, manteve a tradição. “Todo ano a gente faz o Forró da Toca. ‘Toca’ é o nome da minha casa, uma referência a ‘Coelho’, que é o sobrenome do meu esposo”, ressalta. São quase 10 anos da festa, que foi suspensa por conta da pandemia. No ano passado, a saudade foi tanta, que a comunicóloga decidiu realizar um evento virtual mesmo. “Fiz roupa caipira, botei a família vestida igual; decorei a casa; coloquei Dorgival Dantas e Elba Ramalho pra tocar; dançamos e brincamos só nós cinco”, relembra. Para sentir a presença dos amigos e familiares, Aloma e o marido ligaram pra todo mundo: “Foram muitas videochamadas. Quem estava desanimado, acabou se animando”, garante. Esse ano, para alegria geral, o Forró da Toca voltou ao modelo presencial. 

Família Coelho (Foto: Acervo pessoal)

Devoção Fernando Pinto, 64, é devoto de Santo Antônio. A trezena organizada por ele já virou tradição em Rio de Contas, na Chapada Diamantina. No mês de junho, Fernando abre a casa antiga no Centro, onde mora com a família para receber vizinhos, amigos e até turistas. Tem forró e fogueira na porta. A mesa vai para a calçada, cheia de delícias: bolos de batata, aipim, arroz e milho, mugunzá e mingau. Quem for passado pode pegar, sem cerimônia. As muitas opções de licores, produzidos por ele e pela esposa, também chamam atenção. Este ano, o fuá vai contar com uma nova integrante da família: “Estou ansioso para conhecer minha netinha Ana Clara. Depois da pandemia, só tenho a agradecer por estarmos bem”, celebra. 

Interior na capital Em Salvador também é possível encontrar os tradicionais festejos juninos. Na Ribeira, para ser mais precisa. É lá que moradores como Mario Agra, 64, celebram, há décadas, o São João como se deve: com comidas típicas, bandeirolas, muito licor e casa aberta. Tudo começou com a mãe do petroquímico aposentado e se firmou com o irmão dele, Aloisio Agra, conhecido como Lulu, que saía pelas ruas da Ribeira tocando acordeon junto aos amigos, com a Barca do Lulu. Com o falecimento do irmão, Mario acabou dando continuidade à tradição familiar. Com a pandemia, a farra se resumiu à garagem de casa. Esse ano, ele volta a juntar todo mundo, com muito forró pé-de-serra. “Como sempre, vai ter Luiz Gonzaga, Genival Lacerda, Sandro Becker. É pra todo mundo entrar no clima”, avisa Mario Agra. 

De mãe pra filha Para a felicidade de Laura Fernandes, 34, a comemoração na fazenda do tio Almir, em Ipirá, foi retomada agora em 2022. Há cinco anos, a festa, que acontecia há três décadas, tinha dado uma pausa. “É um momento que amo e não aguento ficar sem o contato com essa tradição”, entrega ela.

Laura curtindo o São João aos 2 aninhos (Foto: Acervo pessoal)

Desta vez, a celebração foi a Santo Antônio. Laura levou o marido e a filha de dois anos, pela primeira vez. A pequena usou o vestidinho caipira que a mãe vestiu quando tinha a mesma idade. Como no passado, a jornalista e empresária encontrou cestos de amendoim, milho assado na fogueira, canjica e trio tocando forró. O coração-São João bateu mais forte: “Foi muito emocionante ver minha filha descobrindo esse universo da roça, o que é boi, bode, galinha, andando de cavalo com o pai, foi a coisa mais linda do mundo. Me vi nela também”.

Cecília, também aos 2 anos, curtindo o São João (Foto: Acervo pessoal)

Disposição e animação O São João não chegou a ser uma tradição na família de Leandro Medeiros, 31. Mas, isso não o impediu de desenvolver paixão pelos festejos juninos. Em Paulo Afonso, ele vai de casa em casa para curtir as festas, no melhor estilo ‘São João passou por aqui?’. “Não sou de multidão e nem de ir pra shows grandes. Gosto mais dessas atividades intimistas, que dá pra curtir a tradição e as pessoas”, afirma o bacharel em  Ciências Contábeis. Para ele, a festa precisa ter pamonha, canjica e bolo de macaxeira (ou aipim, aqui desse lado da Bahia). Em contrapartida, Leandro, que também é ator e dançarino, oferece toda sua desenvoltura para dançar os ritmos juninos. “Quadrilha, xote, forró, baião, xaxado, tudo o que envolve a dança sempre me encantou”, conta ele, garantindo levar animação para onde for. Anarriê!

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APROVEITA, GENTE! ‘Eu venho com o pau aceso / pra alegrar o seu São João/ Tô em riste, tô firme, tô teso/ Vou incendiar o seu coração…’ Quem passar o São João em Mucugê tem chance de se bater com um grupo bem animado pelas ruas, entoando forrós de duplo sentido. É a Turma do Pau Aceso, amigos e agregados que se reúnem para os festejos juninos e levam alegria para moradores e turistas. A novidade esse ano é o quadriciclo elétrico ecológico, com melhor qualidade de som e menos resíduo para o meio ambiente. 

Foto: Divulgação

Turma do Pau Aceso

23 de junho, 20h; 25 de junho, 15h

Concentração: Praça da Igreja Santa Isabel

Mucugê, Chapada Diamantina, a 455 Km de Salvador

@turmadopauacesomucuge

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Em 2022, a Zabumbada Irecê vem com gosto de gás, na celebração dos seus 10 anos. O tema deste ano é ‘Forró – Patrimônio Imaterial do Brasil’. Com a pandemia, claro, não teve a festa pelas ruas de Irecê, mas, esse ano, o grupo pretende colocar o forró em dia, com uma grande diversidade de artistas. O objetivo é disseminar a cultura nordestina, em especial o forró tradicional.

Zabumbada Irecê 

26 de junho, 13h

Concentração: Clube da AABB

Irecê, região Centro-norte, a 483 km de Salvador

@zabumbada.irece

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Foto: Divulgação

O Bando Anunciador Acorda Maria Bonita sai pelas ruas de Amargosa no dia 23 de junho, avisando que São João está chegando, distribuindo licor e tocando forró. Muita gente espera o grupo: “Tem os que já ficam na porta, aqueles que vêm de outras ruas, e fazemos questão de passar para que os idosos também possam ver e se divertir”, afirma Mariângela Araújo de Souza, 53, idealizadora do Bando. 

Bando Anunciador Acorda Maria Bonita

23 de junho, 13h

Concentração: Shopping Valle, bairro Santa Rita

Amargosa, região Centro-sul, a 269 Km de Salvador 

@gruporevitalizar

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Bairro de Salvador com jeitinho de interior, a Ribeira abriga o Forró do Jegue, adaptação junina de uma manifestação carnavalesca que ocorria na Península de Itapagipe. O evento cresceu tanto que ganhou a Avenida Beira-Mar, onde está há 30 anos. As pessoas ainda vão de casa em casa e chegam caravanas de diversos locais da cidade. Tem quadrilha, trio e banda de sopro tocando só forró pé-de-serra. 

Forró do Jegue

23 de junho, 19h; 24 de junho, 14h; 25 de junho, 18h

Concentração: Em frente ao Coreto (próximo à Praia do Bogari), na Avenida Beira-Mar, Ribeira. Salvador

*Por motivo do recente aumento de casos de covid-19, o CORREIO volta a chamar a atenção para a necessidade da vacinação completa (de acordo com cada faixa etária) contra o novo coronavírus. Além disso, sugere o uso de máscaras apropriadas, a higienização das mãos e o cuidado com aglomerações.

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