Teolândia, Gusttavo Lima e a festa dos bananas  – Jornal Correio

Sempre que dirijo pela estrada, fico atento às pequenas cidades por onde passo. Carrego comigo sempre a desconfiança de que há algo de belo, bom ou proveitoso para se fazer; seja uma vista, uma praça, uma comida, um monumento histórico. Paro por aí, infelizmente. Pensar num museu, teatro, centro cultural já me parece utopia, frente aos números que citei no artigo passado. 

Muita gente tem dito que o crescimento vigoroso das igrejas evangélicas deve-se ao fato delas estarem preenchendo as lacunas da administração pública. Onde prefeituras, governos estaduais e federal não chegam, com educação, cultura, saúde, e na mínima tentativa de diminuição da miséria, violência e desigualdade, as igrejas ocupam espaço carente e vazio. 

Passei por Teolândia mais uma vez, ontem, vindo para Itabuna. A cidade é cortada pelo Rio Preto, um rio bonito. Mas a cidade dá as costas para o rio em sua urbanização. Sua aparência, na beira da estrada e olhando mais ao longe, é de uma cidade muito feia. Um aglomerado com casas sem reboco, crescimento desordenado misturando pobreza e estética duvidosa. O que falo com tristeza. Terra da banana, poderia ter alguma atração voltada a isso, pelo menos. No entanto, assim como outras pequenas cidades, parecem rasgos na estrada, feridas urbanas enfeando o caminho e a paisagem. 

Em Teolândia, especificamente, uma construção chama a atenção. Um prédio espelhado, com aquela arquitetura imitando a moda, que transita entre clínica médica e casa de novo rico em Alphaville. É uma igreja da Assembleia de Deus. No meio da feiura e da miséria, do crescimento desordenado, surge uma construção que, aos olhos carentes de uma cidade abandonada à própria sorte, é um oásis. Ali, deve parecer existir alguma salvação. 

(Não poderia deixar de abrir um parênteses para comparar com a situação de Itabuna. No Jardim do Ó, temos, de um lado, uma imponente Igreja Universal do Reino de Deus. Do outro, o abandonado e sucateado Centro de Cultura Adonias Filho, prova violenta da miséria cultural com que a Secretaria de Cultura da Bahia trata as artes e o interior do Estado. Onde nosso povo acha que vai encontrar a salvação?) 

Teolândia tem seu grande momento do ano concentrado na Festa da Banana. Recentemente, a cidade tornou-se notícia nacional por conta do cachê de mais de 700 mil reais destinados a Gusttavo Lima. A cidade ainda encontra-se em estado de emergência, por conta das fortes chuvas, e a prefeitura havia declarado não ter recursos para custear ações emergenciais, e nem cumprir com o piso salarial dos professores, alegando “incapacidade financeira e comprometimento com outras áreas”. 

A cidade, em estado de emergência, sem honrar o pagamento de seus professores, descuidada, sem políticas públicas que possam melhorar sus condições sociais, culturais e estruturais, destina mais de 2 milhões a uma festa, sendo mais de 700 mil a apenas um artista, e a cidade faz o quê? Vai à rua protestar. Contra quem? Contra a decisão do Ministério Público de barrar a festa frente às anomalias orçamentárias. 

A ideia das festas anuais é genial. A população pode se lascar o ano inteiro, mas espera aqueles dias para extravasar, ser feliz. Parte da população, em estado de miséria, conta também com esse período para ganhar algum, vendendo alimentos, lucrando por alguns poucos dias com seu comércio ou como ambulante. 

Não parece passar, na cabeça da população, que uma cidade viva, o ano inteiro, cheia de atrações, espaços e manifestações culturais, feiras, museus, teatros, eventos, não só melhora seu povo, como faz o comércio girar ininterruptamente, além de atrair gente de outras cidades vizinhas. 

O estado de emergência do país não é só das fortes chuvas, mas das inexistentes políticas públicas para a arte, a cultura, a educação. Enquanto assim for, o povo continuará queimando pneu na pista para defender que a prefeitura queime seu orçamento em festas, com cachês exorbitantes. 

E o resto do ano, faz o quê? Uns vão ao bar, outros vão ao culto, esperando as festas dos bananas que somos todos nós. 

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